Bom dia!?
Bom dia!?
O dia não tinha começado bem. O despertador não tocou e seu rotineiro e revitalizador banho matinal ficou para o dia seguinte. A consequência disso era uma cara de noite mal-dormida e uma enorme sensação de cansaço. Até o volante do carro parecia mais pesado.
Logo ela que não dispensava uma olhadela no espelho logo após o banho, gostava de constatar o que os colegas lhe diziam sempre: que estava ótima para a idade, que parecia ter, no mínimo, uns dez anos a menos, ou que era um "arraso" de mulher, diziam os mais assanhados.
"Você é bela, jovem e um arraso de mulher". Era a frase matinal diária proferida para a imagem refletida no espelho. Um ritual para espantar os pensamentos relativos ao tempo ou à lei da gravidade. Logo hoje, pensava ela, sem banho e sem afago na auto-estima. O que mais faltava? Quebrar o salto? Levar uma multa por falar ao celular enquanto dirigia? Pior que isso seria se os sinais estivessem todos verdes e não tivesse tempo de fazer a maquiagem. Categoricamente, o fim.
Talvez tivesse sido melhor ter chamado um táxi. Mas agora era tarde demais, não valia à pena voltar.
Ela odiava os motociclistas e a mania que tinham de achar que sempre cabiam nos mínimos espaços ou que sempre daria tempo de passar, ultrapassar ou sair na frente.
Seu retrovisor direito, ainda quebrado, era a prova concreta do seu odioso relacionamento com os "motoqueiros". Para piorar o que já começara mal, agora chovia. Aquela chuvinha fina que só vinha para atrapalhar. O trânsito, que já estava lento, agora caminhava para o caótico.
Não morria de amores pelo chefe e o seu relacionamento com ele não era lá essas coisas, apenas o basicão. Com um problema eminente, a chuva estava ficando intensa e não passaria tão cedo, certamente extrapolaria ainda mais o atraso permitido. Era hora de pegar o celular e enfrentar a fera. Ele, pra variar, estava com o mau humor de sempre. Resmungou qualquer coisa e disse que o departamento dela estava um caos e que ela desse um jeito de logo chegar. Esse era o problema: logo chegar.
Trânsito lento, quase parado, ligou o rádio e olhou para o lado. Viu um motociclista desavisado da chuva e todo molhado. Sentiu uma pequena e estranha alegria ao contemplar a situação pouco cômoda do motoboy ensopado pela chuva e chegou até a esboçar um sorriso de satisfação frente à situação do rapaz imaginando que poderia bem ter sido ele a quebrar seu retrovisor. Vingança? Não. Não era vingativa, nunca foi, não seria agora.
Logo depois do sinal, escolheu uma rua que imaginou fosse dar maior vazão ao tráfego dos veículos. Ledo engano! Ao que pareceu os outros motoristas também tiveram a mesma idéia. Fazer o que agora? Primeiro a maquiagem, depois continuar com plano já que o próximo retorno ainda estava longe e a avenida anterior certamente concentraria um número bem maior de automóveis.
No percurso seu celular tocou várias vezes e sempre repetia a mesma ladainha: ainda não havia chegado à empresa e talvez demorasse de quarenta a cinquenta minutos... desculpas e justificativas com os clientes e outros colegas. Sua previsão não foi feliz, ainda demorou quase duas horas. Optou pelas escadas, afinal o que seriam oito andares para quem estava em ótima forma física? Por ironia, ou pelo excesso de presunção, quebrou o salto e, por pouco, não escorregou escada a baixo. Prometeu nunca mais usar salto e quase amaldiçoou o inventor desse acessório inútil que nenhuma mulher se dá o luxo de viver sem. Mesmo assim, no dia seguinte compraria outro par novinho e com o salto maior ainda, só para contrariar. Afinal de contas, para que servem os elevadores?
Por fim chegou ao local do trabalho e, como seu chefe falara, seu departamento estava um caos. Havia tido uma queda de energia e, quando esta voltou, algum equipamento não funcionou e os sistemas estavam fora do ar, sem mencionar que era o primeiro dia útil do mês e todos os relatórios estavam comprometidos.
Sentou à sua mesa, respirou fundo antes de encarar os recados que, empilhados em cima da mesa, pareciam desafiá-la. Seu ramal não parava de tocar e nem sinal dos relatórios. Então veio a hora do almoço. Esperava que à tarde tudo se normalizasse.
Finalmente os Sistemas estavam no ar, e no ar também estava uma atmosfera de problemas. Avistou sua secretária retornando da sala do chefe com os famigerados relatórios, certamente havia algo errado, concluiu. Parecia que uma nuvem negra estava sobre ela, raios e trovões explodiam e então percebeu que estava com uma dor de cabeça terrível. Por que levantara da cama, por quê?
O telefone não parava de tocar, o celular também não. Ouvia também o despertador insistentemente também a tocar... Despertador!?!!!? Sim, o despertador era o mais estridente dos toques e lhe penetrava pelos tímpanos causando um incômodo terrível e uma dor de cabeça daquelas... Com dificuldade, levantou-se da cama e acendeu o abajur para certificar-se do horário: seis e quarenta e cinco. Desativou o despertador, atendeu ao telefone, era a empregada dizendo que esquecera a chave pedindo que abrisse a porta. Logo o celular toca mais uma vez, era sua filha informando que o voo atrasara por causa das chuvas e que só chegaria as nove ao invés das seis.
Após sintonizar-se como mundo, tomou seu banho frio e revitalizante, conversou com o espelho, fez seu desjejum e tomou um comprimido contra a dor de cabeça. Antes de dirigir-se para o aeroporto para buscar sua filha, ainda na garagem de seu prédio, sentiu uma imensa vontade de enviar um torpedo para chefe, ou melhor, ex-chefe, dizendo que não iria trabalhar hoje, nem amanhã e nem nunca, nunca mais mesmo, pra que ele ficasse lá com seus infindáveis relatórios, que se esquecesse dela, pois ela já tinha tratado de esquecê-lo e se algum dia ela se lembrasse dele, certamente estaria em alguma ilha paradisíaca sem nenhum remorso por ele continuar com seus relatórios infindáveis e enfadonhos.
A única coisa que desejava naquele momento era não desperdiçar uma gota sequer do seu primeiro dia de aposentada. Claro que a palavra aposentada em nada combinava com ela, bela, jovem, um arraso de mulher. Olhou no retrovisor e sorriu para si mesma. Logo que chegou ao primeiro sinal avistou um motociclista parado ao seu lado e estava todo ensopado...
Roldan Henrique
Imperatriz, 24.09.2009
Dez
Dez
Se sou cronista? Escrevo... Escrevo de vez em quando. E contar histórias e causos tem sido uma constante tarefa para mim e de certa forma agradável e até fácil, principalmente depois dos recursos das informáticas da vida, Crtl+X, Crtl+C, Crtl+V, fica mais fácil organizar os textos. A gente olha assim e percebe pelo jeitão dele se dá pra mudar e/ou acrescentar palavras e orações e fazemos isso com infinita facilidade. Lembrei-me agora daquela minha máquina de escrever portátil Remington 33 que comprei com os meus primeiros salários, não tenho a mínima saudade dela.
Com o passar do tempo tornou-se rotina escrever também em ocasiões especiais e a cada dia cresce o querido grupo dos que são agraciados com uma crônica minha, afinal de contas Papai do Céu nos tem proporcionado muitos momentos felizes e agradáveis como o que passo a discorrer agora.
Cadê a crônica, rapaz? Ele me perguntava, pois havia calculado que a ocasião merecia mais uma. Mais uma, pois recordo agora que ele já havia sido tema de outras e lembro até dos títulos: “Medo da Chuva” quando ele saiu de casa para estudar na capital piauiense em fevereiro de 2004 e “Apenas Uma Caneta” quando da comemoração pela sua aprovação no vestibular em fevereiro de 2005. É... a ocasião merecia mesmo. Eu, bobo que fiquei de felicidade pelo resultado do acontecido nem coloquei meus neurônios para rabiscar algumas letras e mensagens... Pisei na bola mesmo negão, desculpa aí...
Saudade é palavra companheira desde 2004 e, apesar de dolorida, temos aprendido a conviver com ela e distante de você. Temos tentado ver com outros olhos o direcionamento que nosso Deus tem dado à sua vida, e, entendemos que nossa cidade é pequena demais para você, seu talento e seu futuro...
Nos meses que antecederam a defesa da monografia, havia em nós aquela preocupação normal com o evento. Como será a sala? Quem estará na banca? Permitirão que a gente assista? E os recursos tecnológicos, a Universidade disporá ou terá que levar? E o texto, tudo ok? Revisado? Revisado novamente? Acrescentou alguma coisa? Ficou legal? E o tempo? É pouco? É muito? Puxa!... Nessas horas parece que o mundo vai cair em cima da gente...
Preocupações à parte preparei-me para o grande dia, 13.07.2009, que estava dentro das minhas férias e eu estaria lá para dar “o maior apoio”. Foi então que adiaram a data para 28.07.2009 e assim eu estaria fora, pois as minhas férias já havia terminado, mas, entra em cena a diretora que não fez nenhuma objeção à proposta: Você vai. Beleza, eu vou.
E o tempo que não pára corria normalmente para o grande dia. Não que duvidássemos do trabalho que você havia preparado, se estava bom ou não. Na nossa torcida por você tínhamos certeza que estava ótimo. E para nós, de cá como que impotentes pela distância, só nos restava pedir ao nosso Deus que fosse à frente, que Ele mesmo estivesse no controle de tudo. Tiro e queda, não deu outra: Dez, nota Dez. Glória a Deus. Parabéns filhão. Que venham outras.
Roldan Henrique
Imperatriz 17/09/2009
Aos Colegas da Pós
Aos Colegas da Pós
Num dia ensolarado do verão sul maranhense me vi frente a uma turma de pós-graduação da UEMA quando comecei a discorrer sobre as aventuras da minha vida acadêmica. O que me motivou na escolha do curso de graduação? Basicamente foi a minha profissão que como a maioria sabe, é bancário. A contabilidade tem a ver com as minhas lides do cotidiano e também já havia me identificado com ela no ensino médio e em cursos específicos do Banco.
No final dos anos 90, enquanto o Brasil quase se tornava penta campeão de futebol na França eu, de cá preparava minha monografia e imaginava em como a contabilidade mudaria ou não minha vida. Durante os anos da graduação minha turma muito se afinou e muitas amizades nasceram com naturalidade e talvez essa tenha sido a causa de poucas desistências de colegas, grande parte da turma inicial recebeu o diploma no mesmo dia, talvez uns 85%.
Ainda não exerço a profissão integralmente e dela não advém o meu principal sustento, mas, existem planos a serem executados brevemente. Já consigo ver o letreiro na parede e clientes me ligando no celular. Vejo os móveis azul com cinza, meu birô com fotos das crianças e a mesa redonda de reuniões...
O meu estágio em nada contribuiu para a escolha profissional, pois ela já havia sido feita. Ele só veio confirmar o quanto me identifiquei com os números, colunas de ativo e passivo, demonstrações financeiras e análises de balanços. Dos números jamais podemos fugir. Aprendi também a fazer outras análises: Mudo ou não de cidade? Deixo ou não meu filho sair de casa para estudar fora? Permito ou não minha filha adolescente namorar? É meus caros o tempo passa e o estágio da vida não termina...
Eu gosto de ensinar, desde sempre. Já ensinei a dirigir carros e motos, já ajudei pessoas a desfrutarem das vantagens de um computador, também já lecionei em escolas. Tenho um sonho de ser professor universitário e nada me fará desistir dele, nem mesmo o salário. Gosto de lecionar e tenho um milhão de idéias para transformar minhas aulas, para conquistar alunos juntando o estilo da professora maluquinha e os métodos da aula japonesa, tenho planos, muitos planos, tenho sonhos, muitos sonhos.
Minha citação pra marcar essa data é do francês Jean Cocteau: Ele não sabia que era impossível. Foi lá e fez.
Para os caros colegas professores, valorosos guerreiros do saber, deixo aqui esta frase do nobre mestre Paulo Freire: “Não há saber mais ou saber menos: Há saberes diferentes.” E como professores que somos, ou seremos, façamos valer a frase de Freire e acreditemos que desta turma poderão surgir professores e professoras no mínimo do naipe da Professora Diana Barreto, do Professor Almada, da Professora Iara Paiva, da Professora Conceição, da Professora Elza Miranda que, carinhosamente, eu chamo de tia Elza.
Tenham todos um ótimo dia.
Roldan Henrique - Imperatriz, 16.08.2009
Três Momentos na Vida de Thiago
Três Momentos na Vida de Thiago
Ao fechar os olhos rapidamente consigo imaginar a figura do menino Thiago, menino calado, quieto, observador. Menino comum que brincava de bola, de carrinho, que gostava de TV, de desenhos animados, de balinha, de chiclete... Menino bonito de olhos claros. Nessa época eu morava fora, em Goiânia, e em visita à nossa Imperatriz entabulei conversação com o menino Thiago. Perguntas de cá, resposta de lá até que eu falei:
Você gosta de mim?
Gosto, ele respondeu.
E como é meu nome? Dão, a resposta foi imediata.
É claro que lhe dei um forte abraço.
Na minha viagem vejo no futuro um homem de branco, bem querido na sociedade, homem simples e humilde, servo do Senhor Jesus. É o Doutor Aguilar, rapaz. Se conheço? Conheço, sim. Foi ele que fez os partos dos meus filhos. Poderá dizer um cidadão. É também professor universitário nas horas que o labor lhe permite. Pai de família exemplar e participante da política local, o pessoal está cogitando seu nome para a prefeitura. Vejo um homem “vistoso”, como dizia o Vô “Meste”. Olhos claros e sinceros.
No momento presente, vejo o que todos vocês estão vendo agora. O rapaz bonito de olhos claros foi transformado em um bonito rapaz de cabeça raspada em face da tradição que nos autoriza a afrontar sua beleza capilar. Além da careca, estão bem visíveis seu semblante meigo e alegre, seus gestos abertos e sinceros, seu sorriso constante, autêntico e bobo. Bobo, bobo sim. Assim como o meu, assim como o do tio Kaká, da tia Edna, de tantos aqui que como eu, amam o Thiago de olhos claros e agora careca.
Vejo de forma espetacular e divina três Thiagos: o de ontem, menino do buchão, de calção e sujo por estar brincando. Vejo o homem de branco, um médico dedicado e que está à frente de obras sociais e vejo o Thiago careca aqui bem merecedor de nosso amor e da nossa admiração.
Com amor, Dão.
Imperatriz, 06 de Julho de 2009
Sim e Não, Não ou Sim
Ela disse não mas gostaria de dizer sim. Ele percebeu que aquele não não era um "não" embora não fosse por completo um sim. Como transformar um não com jeito de sim em um sim? A questão matutina estava formada e ainda viriam outras e outras.
Recorreria à velha técnica da série de interrogações cujas respostas seriam positivas para no final fazer a grande pergunta? Outras idéias lhe ocorriam enquanto procurava encantá-la com sorrisos.
Um outro não. Este lhe soou como um gongo chinês só que ao invés de salvá-lo, sentiu-se encurralado como um toureiro espanhol inexperiente em meio a arena lotada de ávidos expectadores. Não se entregou. Jamais o faria. Alargou o sorriso e iniciou nova estratégia.
Se o não não era totalmente um não e o sim não fora dito (ainda), havia de obtê-lo em pouco tempo, esperava. O rapaz não se dava por vencido facilmente. Então respirou fundo e buscou no olhar da bela moça algo que lhe fosse favorável.
Sua busca durou eternos segundos até que encontrou. Percebeu um brilho que estava ofuscado pela dúvida e então elegeu esta como a próxima batalha a ser vencida. Planos e estratégias seriam montados a partir daquele instante para vencer aquele "se".
O interesse dela era visível, quase palpável. Entretanto o "não" ainda persistia como o entrave central. A vontade dele, juntamente com sua necessidade não conseguiam absorver aquele não. A coisa complicou quando a bela jovem fez menção de levantar para sair e ele não teve como detê-la. Enquanto o pobre rapaz a seguia como os olhos ainda teve chance de entregar seu número de telefone caso mudasse de idéia.
Voltou a sentar-se em sua escrivaninha. Olhou em volta e viu o salão repleto de automóveis novinhos, limpinhos, lindinhos, cheirosinhos e antes que o desânimo o pegasse de vez abriu a sua agenda de contatos ligou para o Sr. Veiga e marcou uma visita. Ainda tinha mais quatro contatos naquela manhã quem sabe ouviria sim nas próximas vezes.
Imperatriz (MA), 10.01.2009
VOCÊ É FELIZ?
Você é feliz?
A pergunta me calou a alma e me fez mergulhar fundo no tempo. Lembrei de muitas coisas boas que me fizeram feliz: do meu primeiro beijo na boca e do fogo da paixão adolescente. Da minha primeira bicicleta e da primeira bola. Das outras bolas e de outros beijos. Da saudade matada num longo abraço. Das aprovações nos vestibulares... Tantas emoções... Mergulhei fundo no tempo...
O conceito de felicidade fica pobre se o atrelarmos apenas a conquistas. No meu mergulho percebi que as conquistas me deixaram feliz, mas não passei a vida inteira lutando, ganhando, vencendo ou conquistando.
Se estou feliz onde estou e como sou? Questionamentos assim me fazem lembrar Michelle. Michelle Dalloni, seu nome. Não era uma mulher bela ou bonita. Era discreta e excelente profissional e também descendente de italianos... Com um pequeno bloco de anotações e com um micro gravador ligado me ouvia às terças-feiras das 16 às 17 horas. Quando eu parava de falar e fitava meu olhar em algum ponto do teto, ela sai com perguntas difíceis: Gostaria de não ter conhecido a Rafaela? Você a apagaria de suas
memórias se fosse possível? Desejou a morte do Sr. Carvalho mais de uma vez? O que prende você ao passado? Se isso não é importante porque você comenta tanto? Perguntas assim. Perguntas difíceis. Ela não insistia em respostas imediatamente, mas, sempre que podia, retomava. De cá, refletia: eu devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer, devia ter arriscado mais e até ter errado mais. Ela era ímpar e eu nunca soube como deixar de responder suas perguntas!
As placas são muito importantes. Elas nos auxiliam a conviver com o mundo à nossa volta. As de trânsito então? O que seria de nós se não fosse aquele PARE nas esquinas? E nos restaurantes!!?? Aquelas placas com o desenho de cartola e bengala indicando o banheiro dos homens já me salvaram de alguns apertos...
Os publicitários, com suas férteis imaginações, vêm buscando o máximo do artifício das placas para fazer conhecido do público alguns bens e/ou serviços. De lenços de papel a canetas, de camisetas a muros, de chaveiros a relógios, e até em locais pouco ortodoxos ele encontram espaços para suas “placas” divulgadoras. Uma maneira bem discreta foi usar o outdoor.
Em locais estratégicos e que permitem serem visualizados facilmente, os outdoors têm sido muito utilizados em nossos dias, mais um apelo do mercado moderno. Apesar do tamanho, onde caberiam muitas informações em textos, o apelo é mais voltado aos olhos. O outdoor que vi, estava divulgando o prazer e o conforto de morar bem num condomínio lançado recentemente. As imagens das casas, jardins, parques e ruas eram belas e sugestivas, as palavras eram poucas: Você é feliz?
Liguei a seta do meu carro para a direita e dobrei. Logo o outdoor ficou para trás. A idéia do publicitário criador do anúncio surtiu efeito e por algum tempo as imagens e a pergunta permearam minha mente e cheguei a pensar em mudar do apartamento que tanto sonhara. Ainda passei umas duas vezes pelo anúncio. Por pouco não vi a face de Michelle no outdoor. Resolvi a questão dobrando algumas quadras antes.
Roldan Henrique
São Luís (MA), 22.02.2008
SOMBRAS
SOMBRAS
Aquele pedacinho da estação do metrô lhe era familiar, sempre que ia ao trabalho, ou saia de casa passava por ali, era entre a bilheteria e a catraca, pequeno trecho que ficou ainda mais cravado na sua mente depois daquele dia. Era uma manhã comum e de repente do nada, fora abordado por uma turma que, a título de abordagem, lhe ofereceram uns trecos para comprar e logo após deram voz de assalto...
O que veio após isso foi algo terrível e nunca antes experimentado ou imaginado. Na verdade foram segundos, mas que pareceram uma eternidade. Com palavras ásperas e de baixo calão lhe foram tirados a carteira, o relógio e o celular. Os sapatos e roupas não chamaram a atenção dos meliantes. Baixou a cabeça e saiu assim, de fininho, lamentando o acontecido. Seu semblante estava sério e seu olhar de repente tornou-se vazio. Andou até não conseguir mais. Sombras de espectros o assustavam, era a primeira vez que andava no vazio de seus pensamentos.
O que lhe furtaram de material em algum tempo conseguiria de volta. Nos jornais e TV o que não faltam são promoções e ofertas de celulares, relógios, bolsas e afins. Fora humilhado e insultado. Ouvira palavras lhe acusando do que nunca foi, não é e jamais será. Talvez para manter-se vivo não reagiu, apenas calou-se resignado. Naquele dia também lhe furtaram a maior riqueza: paz e alegria.
Algo que lhe doía e que não podia evitar: Tinha que continuar a passar por aquela mesma estação do metrô na saída e na volta pra casa. Apesar da vontade de mudar não dispunha de condições financeiras para tanto. A solidão, mesmo em meio a tantas pessoas solidárias, passou a ser sua companheira. O sorriso lhe faltou e era comum ser visto olhando para lugar nenhum. Foi um tempo difícil, especialmente por não poder mudar cenários e circunstâncias. Aos poucos, frente às palavras de apoio a ele dirigidas, foi recobrando o ânimo e, algumas vezes, pôde ser visto sorrindo. A solidão, enfim, deu lugar ao recomeço. A resiliência aplacou a loucura.
Roldan Henrique
Imperatriz (MA), 03 de novembro de 2007.
FOTO CASUAL
Foto Casual
Estavam ali todos, perfilados. Depois de composto o quadro a ordem era
dada; Sorria! Ninguém nunca gostou do Paulo. E da Angélica então ?!?! Ao
lado da irmã estava a Zaira, que apesar de ser bela, era chata e por poucos
querida. Sorria! A ordem era lembrada. Brancos, verdes, azuis, amarelos.
Apesar da pouca afinidade entre um e outros, entre vários e muitos,
apareciam sorrisos de toda cor e que logo desapareciam após o barulho de um
click ou do brilhar de um flash.
Sabe aqueles almoços de domingo quando tem alguém ou “alguéns” de fora e aí
aparece mais um e mais outros e junta gente até que quase nunca se vê? Pois
é... o quintal se transforma em sala com cadeiras postas por todo o lado e
a sala vira aquela bagunça com farinha, pratos e copos espalhados por todo
canto.
O clima de festa estava criado com todo mundo conversando ao mesmo tempo e
alguém fotografando todos e todos mostrando os dentes como que ainda
ouvindo aquela voz: Sorria!
Num desses dias, uma vez foi fotografado de forma casual, não sabia que
estava sendo alvo de uma objetiva e agiu de forma natural e simples. Foi
ele mesmo, sem caras e bocas, sorrisos e olhares.
Foi-lhe revelada a existência da foto meses depois, talvez anos. Estavam em
um local comum, e conversavam sobre o que mostrar para os netos dali a 50
anos:
-Tenho uma foto sua que você nunca viu...
-Serio?!?
-Sim, e como se estivesse contemplando a imagem ela descreve, você está com
uma blusa quadriculada verde, calça jeans, óculos, cabelos levemente
grandes, barba por fazer, está sério e com o olhar perdido num ponto
distante...
-Puxa! Quero ver.
-Receio que não.
-Como não? Afinal sou eu que estou na foto.
-É verdade. Mas, prefiro guardar a imagem só prá mim. Respondeu sorrindo.
Ainda insistiu no intuito de conhecer a fotografia, entretanto como ela se
mostrasse irredutível, respeitou-lhe a vontade. Tinha lá suas razões,
resignou-se. Chegou a imaginar-se tal qual fora descrito com tantos e
pequenos detalhes e é esta a imagem que tem até hoje daquela foto casual.
Roldan Henrique
São Luís, 13.06.2007
Reviravolta - Parte II
... continuação
Sem dificuldades, aprendeu a ler em poucas aulas. A professora, não raras vezes, testava os novos conhecimentos de Alfredo e sempre sorria e passava uma das mãos na cabeça do menino numa atitude de carinho. Não havia ainda tentado descobrir o que continha no pedaço de papel, pois cuidava que não acumulara conhecimentos tais que pudessem interpretar a mensagem daquele papel amassado que tão preciosamente guardara sob sete chaves. Os velhos livros de debaixo do colchão, estes sim, foram comidos por aqueles olhinhos ávidos de conhecimento. Porque continham conteúdo apropriado, lhe foram muito úteis naquele processo de aprendizagem.
No dia da “formatura” da turma já devidamente alfabetizada, ele recebeu o prêmio de melhor aluno e até improvisou um pequeno discurso que começava com “Senhoras e senhores este momento é muito importante para mim e toda a minha turma...” e terminava com um “Muito obrigado”. Todos aplaudiram. Lá também estava seu irmãozinho e sua mãe. Nessas horas, também o pai estaria junto. Mas o dele havia sumido antes mesmo que ele desse seus primeiros passos.
O dia seguinte foi super diferente. Dirigiu-se logo cedinho à padaria do Seu Joaquim, o português que era um dos mantenedores dos programas da comunidade. O emprego fazia parte da premiação de melhor aluno. Em rápidos dias desenvolveu-se naquele pequeno estabelecimento. Sabia fazer de tudo, entedia de forno, de pães, de bolos, de massas, de pesos e medidas. Até ficava no caixa nas vezes em que Dona Safira não podia.
Ganhou confiança, amizades, respeito, admiração, entre outras coisas. Ganhou dinheiro também. Passaram-se anos e o menino virou rapaz. Não perdeu o gosto pelas letras e estudou como sonhara outrora, usou livros novos com aquele cheirinho gostoso, mochila novinha. Fez seu irmão sentir as mesmas emoções. Convenceu sua mãe a fazer o curso de alfabetização na escola comunitária, antes de mudarem para uma pequena casa própria.
Vez por outra se lembrava do pequeno pedaço de papel amassado e deixava de lado, pois as suas atividades eram bem mais importantes que satisfazer uma curiosidade infantil. No dia em que literalmente leu o bilhete foi por acaso. Estava à procura de um pequeno souvenir. Agachou-se perto da cama e vasculhando aqui e ali, achou os dois. Desta feita, leu o papel.
A escrita era de uma pobreza total. Falhava nas pontuações, concordâncias, ortografia e tudo o que “tinha direito”. Apesar de tudo, a comunicação fez seu papel. Tratava-se de uma rota de esconderijo, havia endereços e pontos de referências, a padaria em que trabalhava era uma delas. Lembrou-se das palavras do moribundo “se encontrar, é tudo seu...” rapidamente deduziu o que poderia ser o “tudo”. Agradeceu aos céus por nunca ter sido abordado por ninguém que tivesse alguma ligação com o conteúdo daquele bilhete. Deduziu que foi porque ninguém o vira conversar com aquele homem.
Devagar as coisas iam ficando claras em sua mente. Eram detalhes que nunca havia considerado, dada sua pouca idade. O local do encontro com aquele homem era pouco conhecido, pois na verdade era um atalho que somente sabia. Então surgiram perguntas: Como aquele homem sabia daquela rota? E o fato de que o moribundo o chamara pelo nome? Lembrava agora das palavras do finado “Alfredo... se você... conseguir..., é tudo seu.” Aquele “tudo”, pelo modo como foi colocado, deveria ser algo de valor. Que interesse aquele homem tinha na sua pessoa ao ponto de lhe indicar algo de muito valor? Como uma pessoa que nunca vira antes sabia seu nome? Voltou a olhar aquele pedaço de papel, seus rabiscos e desenhos e, sem hesitar, o rasgou em pedaços pequenos os jogando no lixo. Enquanto outras perguntas calavam em sua mente. A conclusão veio antes de levantar-se: aquele pobre homem era o seu pai.
Roldan Henrique
Imperatriz, 28.05.2007
Reviravolta - Parte I
Reviravolta
O sono demorava a chegar, como sempre, mesmo depois de um longo dia de trabalho. Mas o sonho, esse vinha rápido, antes mesmo de dormir. Às vezes sonho de menino, como ganhar presentes no natal, no seu aniversário ou no dia das crianças. Às vezes sonho de adulto, sonho por uma vida mais digna.
Olhava o teto sombrio do barraco cinzento e sujo e via, através dele, um futuro melhor. Seus olhos brilhavam ao ver a cena de seu primeiro dia de aula, a professora, cadernos e livros novos na mochila, meu Deus, nunca tivera uma mochila. Livros? Tinha um ou dois que a mãe trouxera para casa após sua jornada diária de trabalho catando papelão nas ruas para vender na reciclagem. Livros velhos e sujos. De nada adiantavam já que não sabia ler o menino. Ainda que tivessem gravuras! Mas estavam lá, debaixo do colchão, aguardando para o dia em que aprendesse a ler.
Novamente a imagem da professora, dos livros encapados e com cheirinho de novos. Outra vez os olhinhos brilharam. Quem sabe um dia? Quem sabe amanhã cedo quando acordasse, a sua vida não fosse sua e sim outra, como num passe de mágica?
Adormeceu na esperança de poder acordar em outro mundo, onde ele fosse criança e pudesse brincar e ir à escola.
Mas, infelizmente, amanheceu tudo igual.
O barraco cheirava mal e a mãe já havia saído com o irmão mais novo para as ruas, catar papel para garantir ao almoço.
Ele já sabia o que tinha que fazer. Levantar da cama e ir para o seu trabalho. Café da manhã nunca tinha mesmo. Às vezes tinha pão, mas só às vezes. A mãe e o filho menor arranjavam qualquer coisa para comer na rua. Ele, na maioria das vezes, ficava mesmo sem comer até à hora que a mãe voltasse com algo para preparar para o almoço.
Mas naquela manhã ele estava diferente, com um brilho maior no olhar. Nem percebeu quando cortou o dedão do pé enquanto tentava limpar os mariscos. Os olhinhos apertados olhando longe, muito além da lagoa, muito além da favela.
Mergulhou tantas vezes que já estava sem fôlego, mas ainda tinha forças para limpar os carurus, encher o saco e levá-lo nas costas até à favela, para a venda.
Todos os dias eram assim. Seu ritual à espera de uma felicidade que nunca vinha, mergulhar atrás dos mariscos, limpá-los com os próprios pés e depois transportá-los nas costas. Ele e outros meninos da mesma idade, tinha até uns dois bem menores que os demais. O Zezinho tinha apenas oito anos e era o menorzinho, mas já suportava o tranco, conseguia carregar uns cinco quilos de sururus nas costas. Nenhum deles ia à escola, passavam assim a maior parte de sua infância.
Mas com ele seria diferente. Ele sonhava alto, tinha planos, tinha ideais e iria lutar por eles como alguém que tenta desesperadamente viver. Iria conseguir sua passagem para um mundo melhor.
O vento frio fez o seu corpo molhado tremer, como tremiam as palhas dos coqueiros ao longe. O vento açoitava seus pensamentos de menino. O que seria dele, pensou, depois de um ano, dois anos, uma vida mergulhando atrás de sururus? Suas costas doíam e ele tentou relaxar os membros rijos nos minutos intermináveis do medo que de repente sentiu de não conseguir realizar seus sonhos.
Do tempo ninguém é dono. E assim, ele, o tempo seguiu seu curso. A imaginação de menino não conseguiu vislumbrar sequer o que poderia protagonizar nas ruas por onde comumente passava ou nas vezes em que mergulhava. Naquele dia, o que viu, o que encontrou, mudou vários conceitos que até então considerava.
Logo bem cedo quando estava a caminho para o seu trabalho, um homem veio aos trancos e barrancos ao seu encontro até quase o atropelar e cair de lado. O homem, praticamente sem vida, agonizava e balbuciava algumas palavras ininteligíveis. Estava ali deitado no chão jogado à sua própria sorte, ferido de morte, sangrava por várias partes do corpo. Num último esforço mirou nos olhos de Alfredo, retirou um pedaço de papel amassado do bolso esquerdo de trás de sua calça e entregou ao menino. Ainda conseguiu dizer: Alfredo... se você... conseguir..., é tudo seu.
Nunca tinha visto aquele pobre diabo em sua vida. Olhou em volta e não viu ninguém. Pensou mil e uma coisas. A mente fervilhou de idéias e ao mesmo tempo as reprovava de imediato. Por fim, resolveu sair dali antes que alguém o visse perto do já defunto e tirasse conclusões precipitadas que, por certo, o incriminariam.
Já distante do local do furtivo encontro, procurou interpretar de algum modo o que estava registrado no pedaço de papel que recebera minutos antes do moribundo. Encarou o papel de variados ângulos como se isso lhe facilitasse a interpretação. Lastimou-se por não saber ler e então tomou a decisão que mudaria por completo sua vida. Haveria de aprender ler custasse o que custasse.
No dia seguinte, ouviu alguns comentários sobre o corpo encontrado perto do manguezal, mas mostrou-se pouco atento ao que diziam os homens naquela roda de bar postada na calçada por onde passava. Para ele, o que importava agora era aprender a ler. Isso era fator de urgência. Falou com colegas do interesse de aprender a ler, com isto sua vida poderia ser bem mais “simples”. Usava esse termo como um antônimo de complicada. Imaginava que poderia ganhar mais dinheiro com o domínio desta arte.
Não demorou e a solução caiu-lhe como que dos céus. Ouviu num rádio que numa associação comunitária teria aulas de alfabetização nos próximos finais de semana. Foi um dos primeiros a se matricular. O preço foi um quilo de alimento não perecível que, a duras penas, conseguiu com a mãe após explicar o objetivo. Ela, com uma pulga atrás da orelha, consentiu e lá estava ele na primeira fila da improvisada sala de aula.
... continua ...
Roldan Henrique
Imperatriz, 28.05.2007
VOANDO BAIXO
Voando Baixo
Acidentes acontecem. Era isso que o pobre Jeremias, em meio às dores causadas pelas escoriações e talvez um ou outro braço quebrado ou os dois, ia pensando em contar aos amigos quando estes lhe perguntassem sobre o que tinha se passado e a razão de tantos curativos, gessos e hematomas.
A sirene da ambulância em nada se importava com os pensamentos dele e anunciava a todos e em bom som a urgência da missão. Os carros abriam passagem e como um às do volante o motorista completou sua tarefa parando em frente ao hospital de acidentados.
Médicos e enfermeiros a postos para prestarem os segundos socorros ao nosso herói que... Ai, ai, ai, gemia quando foi deslocado de dentro da ambulância.... ainda martelava na mente uma história convincente capaz de evitar uma gozação geral da galera que, encabeçada por Gustavo, nada deixava passar batido.
Olhava o litro de soro colocado ao seu lado e imaginava mil e uma perguntas: Mas como foi mesmo? O que você fazia em cima da casa? Que hora aconteceu? Você tava sozinho? Quem chamou a ambulância? Você escorregou e caiu? Caiu e escorregou? Quebrou quantos ossos? Quando vai tirar o gesso? Quem te socorreu?
As perguntas lhe doíam quase tanto quanto os machucados de seu corpo ali tão dependente de cuidados médicos. Foi assim até que apagou sob efeito de anestesia. Acordou umas três horas depois já com a turma toda ao redor do seu leito.
Sua mente foi a mil por hora e o coração também. Fez umas caretas antes de ouvir toda a enxurrada de perguntas já prevista por ele. Olhou em volta e avistou Gustavo com um sorriso maroto nos lábios. Pobre de mim, pensou não se referindo aos machucados.
Como num estalo saiu a versão de que foi tentar tirar um gatinho de uma árvore próxima à janela de seu quarto, escorregou e caiu. Pronto! Mentiu.
Na conversa ao telefone com Juliana, ela lhe dizia que a saudade era tanta que se pudesse voaria pra ir ter com ele. Inflamado pela paixão que os envolvia, Jeremias disse o mesmo pra ela. Talvez tenha se empolgado e sentado na janela e quem sabe até se imaginou voando até os braços da amada. O resultado foi drástico. Esta versão jamais seria contada.
Imperatriz, 12 de maio de 2007.
Roldan Henrique / AnaLu Pereira
O Pedido
- ... então... peça o que você quiser.
- O que eu quiser?
- Sim, o que quiser.
O diálogo do dia anterior terminou assim. Não era a primeira vez que protagonizava uma conversa como essa. Lembrava-se bem que, quando menino e ainda em tenra idade, ouvira seu pai proferir iguais palavras às vésperas de seu aniversário. Naquela época tudo era diferente e ele era um dos mais novos filhos de uma família de 7 irmãos e, apesar de sua pouca idade, já entendia que aquele “o que você quiser” dito pelo pai não era realmente o que quisesse pois, sabia das parcas posses do velho a julgar pelo barraco que moravam, roupas que trajavam, arroz branco que comiam...
Era conhecido de todos o que ele queria, até parecia estar estampado em seus pequenos e brilhantes olhos quando falava com propriedade do objeto de seus desejos. Não importava a cor, poderia ser verde, vermelha ou azul, queria uma bicicleta Tigrão, daquelas que o pneu traseiro é maior que o dianteiro, pois tem aro 16 enquanto que o da frente tem aro 10, falava ele como que todo entendido do assunto. Isso facilita o equilíbrio, completava.

Na realidade ele nem sabia direito pilotar uma bicicleta, quando tentou foi nas de colegas que logo as queriam de volta temendo quedas e outros acidentes pertinentes. Mas isso não fazia com que desistisse. Um dia haveria de andar na sua própria bicicleta, falava a si mesmo tentando erguer a cabeça à espera de um futuro melhor.
Para não contrariar o pai e, por conseguinte, a si mesmo pediu um carrinho. Um fusquinha azul. Quero um fusquinha azul, disse. Ele sempre via o brinquedo quando ia à venda comprar mantimentos. O preço do carrinho era o equivalente a meia dúzia de ovos. É claro que o pai já havia comprado e embrulhado o brinquedo. O mesmo foi colocado debaixo de sua rede enquanto dormia. Ao acordar cedinho no dia “d” lá estava o pequeno embrulho à sua espera. Com euforia contida rasgou o papel colorido que envolvia o pacote. Sempre lhe diziam que quem rasgasse papel de presente ao desembrulhar ganharia mais outros. Naquele dia o ditado não valeu. De presente só recebeu o carrinho azul.
Embora o diálogo fosse semelhante, desta vez quem lhe falava era Margarida, sua possível quase futura namorada. Passaram-se 10 anos e, por causa da igualdade das palavras, não pôde furtar-se à lembrança do episódio com o pai. Mensurou possibilidades e imaginou o que poderia advir do fruto de seu pedido. Peça o que quiser, relembrava ele. Sorriu, olhou firme nos olhos da garota e sussurrou algo ao seu ouvido. Foi assim que ganhou seu primeiro beijo.
Roldan Henrique
Imperatriz (MA), 1º Sem/2006
Flores
Lembra aquela cara de feliz que você ficou quando recebeu flores? Não é comum isso acontecer. Entenda, quero dizer que não é “todo dia” que recebemos flores. Isso, ser alvo desse tipo de oferta, certamente tem um significado. Talvez o primeiro e mais aceito seja “Você é importante pra mim”. Aquele que presenteia com flores, seja amigo ou amiga, amor, ente querido, parente ou cliente está sempre enviando uma mensagem de carinho e consideração para a outra pessoa e demonstrando seu apego e/ou interesse.
Como tudo evolui hoje os floristas profissionais procuram combinar arranjos e simbologia das diversas flores com técnicas modernas, design e estilos para expressar de forma conveniente, nas mais diversas ocasiões, os também diversos sentimentos. Mas isso, de simbolismo, não é novo não. Desde a antiguidade se convencionou criar simbolismos para flores. Existem variações, mas as mais conhecidas são: Amarílis = orgulho; Camélia = beleza perfeita (lembra da marchinha da jardineira?); Cravo = distinção, paixão feminina; Girassol = altivez; Lírio = pureza; Jasmim = graça e elegância; Margarida = inocência; Narciso = vaidade; Orquídeas = beleza; Rosas = amor; Tulipas = declaração de amor; Violetas = fidelidade, modéstia.
As rosas são um capítulo à parte, pois são consideradas como eternos símbolos do amor e ganharam até linguagem própria: dizem que a cor das suas pétalas também levam mensagens. As vermelhas simbolizam as emoções apaixonadas, as cor-de-rosa estariam ligadas aos amores sublimes, as brancas ao amor puro e incondicional, enquanto as amarelas são misteriosas - uns dizem que simbolizam o ciúme, enquanto outros afirmam que estão ligadas aos amores afortunados.
Confesse: É muito bom receber flores. Dizem que elas têm impacto imediato no estado de felicidade das pessoas e que têm um efeito positivo e duradouro no humor. Elas criam relacionamentos mais fortes, diminuem a depressão, melhoram a memória e estimulam o relacionamento social. Quem as recebe fica imaginando situações para fazer o mesmo (não necessariamente com a mesma pessoa). Estudos demonstram que flores fazem as pessoas se sentirem mais felizes do que elas próprias podem perceber.
O outro lado da moeda também é muito bom. Presenteando com flores é praticamente impossível errar. A pessoa presenteada ficará satisfeita tanto com o presente (as flores) quanto com a carga de simbologia que transmitem. Daí, laços são fortalecidos e relacionamentos são mantidos ou alargados. Elas auxiliam quem pretende promover a paz ou união entre as pessoas, são uma das formas mais infalíveis de pedir desculpas ou demonstrar gratidão. São também um linda e chique maneira de comemorar datas familiares ou tradicionais.
Para preservar um pouco mais esses momentos mágicos é bom saber que os ambientes arejados e frescos ajudam a prolongar a vida das flores. Não pense em colocá-las num vaso com água assim que receber, pois há arranjos florais que possuem sua base, onde na maioria das vezes uma espuma floral mantém água fresca por um tempo determinado. Procure colocá-las em um local apropriado e adicione água diariamente (tome cuidado para não colocar água sobre as flores). Lembre–se que ambientes com ar condicionado secam demais os arranjos e que fornecer água às flores diariamente é fundamental para prolongar-lhes a vida.
Agora a parte triste da história. Por mais que se tente fazer pelas flores tentando prolongar-lhes a vida, depois de retiradas do solo, dos jardins ou estufas pouco tempo lhes resta de vida. Singela função essa delas. Morrer, dar-se para causar regozijo de pessoas mesmo que seja por alguns minutos e após isso serem esquecidas dentro de um vaso com água em algum lugar da estante e no lixo uma semana depois. Talvez isso seja o que torna as flores fortes, lindas e com vontade de viver e, quem sabe, fazer a alegria de pessoas como você.
Roldan Henrique
Imperatriz (MA), 07.04.2007
As Pessoas não Esperam as Crianças
As Pessoas não Esperam as Crianças
O que primeiro me chamou atenção foram os seus olhos. Olhinhos pequenos e apertados e, percebia-se, ávidos por conhecimentos. Observava-me de longe e em silêncio. Coube a mim a aproximação. A diferença de idade não atrapalhou em nada o início de um grande amor.
Com o passar do tempo nossa intimidade aumentava. Quando era preciso sair para uma pequena ida ao supermercado ou padaria, ela era presença certa no tanque da moto. Menina comportada, na igreja sentava-se sempre ao lado dos pais a não ser quando ia pra junto do Dão, pois ela sabia que eu sempre tinha no bolso uma caneta e dentro da bíblia papéis em branco. Naqueles papéis eu ficava a desenhar de tudo para que antes de terminar ela dissesse o que seria: bolas, bicicletas, sorvetes, sapatos, caminhão do papai Kaká ou moto do Dão, pipo, pipa, bonecas, livros, o que sua pequenina e fértil mente conseguisse captar eu tentava colocar no papel. Era impressionante a rapidez com que ela “sacava” o teor do desenho. Eu sorria, ela ganhava um “muito bem e um beijo”.
Não posso precisar de onde veio o nome “Carmélia Gonçalves”. Acho que peguei o radical de seu nome que eu achava grande demais pra ela, retirei o “t” e o “h”. O Gonçalves foi de um candidato a deputado que à época zanzava pra lá e pra cá em um carro de som atrapalhando nossas brincadeiras. Depois o Carmélia ficou ainda maior que o Carmelitha, pois se tornou Carmelhinha.
O que esperar de uma menina de pernas compridas? Não é que hoje ela é maior que eu!!! Também pudera os alimentos industrializados em sua maioria contém vitaminas, cálcio, proteínas o que não era prática na minha tenra idade quando os meus lanches eram a base de café com pão da “Di Lourdes”, garapa de rapadura ou rapadura mesmo, costume herdado do “Vô Meste”. Ao terminar de beber um copaço de Nescau (vitaminado, é claro), sua mãe com o intuito de incentivá-la sempre dizia: A Lilitha é moça! Um dia, por causa da expressão citada, fui surpreendido ao terminar de saborear um gostoso copo de suco que me foi servido, com a mesma empolgação de sua mãe ela disse: o Dão é moça!!! Não a reprimi, sorri, a abracei e lhe dei um beijo, é claro que entendi o elogio.
Vocês agora devem estar se perguntando a razão do título desta crônica que é um tanto esquisito, até estranho mesmo. É claro que foi de autoria dela. Aconteceu quando começou a querer mostrar que “sabia ler” o detalhe é que ainda não tinha ido ao colégio. Pegou uma revista e mostrou a imagem: Eram adultos caminhando e logo atrás havia um grupo de meninos e meninas. Ela de pronto leu “o que estava escrito” acompanhando com o dedinho e tudo mais: As pessoas não esperam as crianças.
De lá para cá, muita coisa mudou e hoje, com certeza, ela sabe ler. Não é mais primeiro, terceiro, oitavo, décimo períodos, como marcava o seu pai. Ela é, sim, graduada em direito, fato que nos deixa muito orgulhosos e felizes. De cá, relembro com alegria e saudade nossas primeiras brincadeiras e aventuras do passado. Cheio de expectativa de um futuro promissor e abençoado por Deus e quem sabe Ele mesmo me conceda a graça de morar numa cidade em que ela seja juíza. Carmelhinha, será de muita alegria pra mim estar presente em todas as suas conquistas e como na época dos desenhos você ganhará um “muito bem e um beijo” e até um elogio a mais: A Lilitha é moça!!!
Um beijo,
Dão
Imperatriz, 31.03.2007.
Dizendo Adeus
Dizendo Adeus
A enxerguei no saguão de um aeroporto quando voltava de uma viagem a trabalho. Logo que a vi, reconheci e o fiz pelos olhos que em nada mudaram, apesar dos mais de quinze anos que se passaram. Sua beleza era estonteante, daquelas que não passavam despercebidas em qualquer ambiente. Sorriso aberto e olhos claros, cabelos soltos e passos de bailarina, seu vestido lhe dava um ar de princesa e a bagagem de mão denunciava que não estava só. Ela estava acompanhada de uma garotinha de talvez uns cinco anos que, facilmente deduzi que deveria ser sua filha dada à semelhança de seus traços com a mãe. Tive a certeza quando a pequena perguntou: Mamãe posso abrir o meu pacotinho de biscoito agora?
Mesmo filha de um pai executivo, funcionário do alto escalão de uma multinacional, ela não se portava como uma patricinha, era simples, sem exageros de roupas ou de enfeites, conseguia se passar facilmente por uma normal. Era linda como uma musa, meiga como uma deusa, simpática como uma vendedora de consórcios e isso tudo me fascinava. Não acreditei quando, numa das muitas vezes em que a fitava no colégio, seu olhar cruzou com o meu, ela sorria... Disfarcei olhei para outro lado por achar que tinha sido apenas coincidência e quando voltei a encará-la ela ainda olhava pra mim e se dirigia em minha direção. Ao se aproximar pediu ajuda para abrir o refrigerante em lata, pois temia em quebrar a unha e isso e aquilo outro... Não me fiz de rogado, a ajudei e entabulei conversação, apesar de não acreditar que aquilo estivesse acontecendo. Percebi que muito do que eu imaginara dela era verdade e que muito do que eu não conseguia imaginar era mais agradável ainda. Entre risos e prosas, sonhos e versos nasceu a paixão.
Tudo aconteceu muito rápido e nas proximidades das férias de meio de ano. Foi tudo lindo, muito lindo mesmo, pareciam cenas de flashes backs de filmes românticos ou de clipes musicais. Ora passeando por jardins públicos, ora correndo na praia. Ora sentados em um banco de praça, ora numa sorveteria. O dia foi longo, diferentemente de quando acontece com coisas boas em que achamos que o tempo passa rapidamente, as horas pareciam arrastar-se e naquela tarde tudo estava a nosso favor. E o que fizemos naquele dia ficou arquivado em minha mente como o mais importante acontecimento até então de minha vida. O beijo adocicado pelos sorvetes, a maneira carinhosa como passava as mãos pelos meus cabelos, as trocas silenciosas de olhares, os trechos de canções que cantou... Somente no final do dia entendi a razão dos abraços apertados. Somente no final do dia ela me falou de adeus. Que o pai havia sido transferido e que viajariam no dia seguinte. Ao questioná-la porque não me dissera antes ela me perguntou se o dia teria sido igual se já soubesse da sua partida. Nada respondi e ela, a passos curtos, foi embora.
A vontade de abordá-la foi enorme, mas sopesando o que aquilo representaria ou não, continuei a contemplar a cena da mãe e filha conversando até que o vôo delas foi anunciado, o meu demorou ainda uma meia hora. Novamente por um instante nossos olhares se cruzaram mais uma vez. Pensei em sorrir, mas permaneci impávido. Tentei ler algo em seus olhos, mas o curtíssimo tempo não permitiu e a porta em que elas entravam não demorou a fechar, pois eram as últimas pessoas da fila de embarque. Acho que ela não me reconheceu e então entendi que aquele adeus do passado deveria ser considerado um adeus mesmo.
Roldan Henrique
Imperatriz, 08.10.2006